Bater em mulher pode? E em homem? E em criança? E em gay?

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A violência contra a mulher vem sendo praticada em todas as partes do mundo, e em alguns países chega a níveis acima do absurdo.

Deve, portanto, merecer o repúdio de todas as pessoas ditas civilizadas.

Mas esse repúdio contra a violência tem que ser muito mais amplo e deve também, é lógico, contar com o engajamento da mulher, que muitas vezes enxerga a violência apenas contra si mesma.

Está errado bater em mulher, como também está errado a mulher bater em homem.

Uma convivência que também possa ser classificada como civilizada não pode ter como ingrediente qualquer tipo de agressão física. E muitas mulheres repelem a violência contra as mulheres mas encaram essa violência sempre como a mais cruel apenas quando são elas as vítimas, mas quando agridem sempre apregoam que isso não é uma violência, ou não foi uma violência tão forte mesmo quando a vítima, que no caso não foi ela, tem que enfrentar sérias mazelas ou consequências.

Parte-se do princípio de que a mulher é mais frágil fisicamente do que o homem. Afora o fato de que isso nem sempre é verdade, é preciso lembrar também que essa circunstância varia e que há situações em que também o homem se encontra em situação de fragilidade ou de vulnerabilidade.

Está errado agredir, mas igualmente errado está em se reconhecer como vítima apenas quando se é agredido, sem se considerar agressor ou agressora quando se pratica a agressão.

Mas novamente dizemos: agredir é um verbo mais amplo do que se costuma perceber em algumas circunstâncias.

No meu site pessoal (os links estão na descrição do vídeo a seguir) eu publiquei pelo menos dois artigos sobre a questão da violência contra crianças, um problema muito mais sério do que aqueles que ironizam o que passaram a chamar de lei da palmada.

Se é covardia um homem bater numa mulher, o que se dirá do fato de um adulto bater em criança?

A ótica calhorda que se apregoa é de que criança precisa apanhar para aprender ou para ser convenientemente educada.

É um dos absurdos de uma certa humanidade que considera sonoro o barulho das motocicletas e que se incomoda com o canto de um pássaro.

Em primeiro lugar, pai e mãe não batem no filho para educar. Batem porque perderam a paciência. E batem porque não têm força moral para darem ordens que sejam obedecidas, ou porque não sabem fazer aquilo que acham que dá resultado com pancada, que é educar os filhos.

Uma criança precisa ser educada desde os primeiros passos, desde muito pequena ainda. Esperar que ela complete quatro ou cinco anos para então começar a educação é apenas uma prova do despreparo de muitos pais, que, por isso mesmo, acabam fracassando e apelam para um ingrediente absolutamente dispensável na educação.

E os adultos que se comprazem em relatar, aos risos, as surras que levaram na infância, não estão dando atestado nenhum da eficácia desse método, mas tão somente tentando justificar as surras que dão nos próprios filhos.

Há quem apregoe que adolescentes que caem na marginalidade acabaram chegando a isso porque não apanharam quando eram crianças, mas o fato é que, quando não eram crianças, não foram educados, o que é muitíssimo diferente.

O ímpeto e o impulso de bater se tornam mais frequentes (e mais cruéis) quanto mais se adiam os métodos corretos de educar, que devem começar muito cedo.

E seguramente uma criança submetida a violência terá probabilidades indubitavelmente maiores de se transformar num adulto violento do que uma criança que foi educada com amor, carinho e diálogo, o que não significa, evidentemente, ceder a todos os caprichos e manias, mas saber coibi-los sem apelar para a violência.

E um dos itens mais preocupantes no castigo físico de crianças é a escala de violência em que isso se transforma.

Uma criança que é educada na base da violência vai acabar sempre apanhando diante da situação mais banal, em que aprenderá somente a obedecer quando apanhar.

De um modo geral, as pessoas não têm a menor ideia do número de crianças que são levadas ao pronto-socorro quase à morte, mortas ou seriamente traumatizadas, tanto física como moralmente, e cujos pais procuram apresentar a situação lamentável dessas crianças dizendo que elas sofreram apenas… uma queda.

Há algo mais covarde do que isso?

A situação é tão séria que certa vez fiz uma reportagem sobre uma proposta do engenheiro Paulo Bérgamo estabelecendo um controle rígido de comunicação entre as delegacias para detectar os casos frequentes em que pais que batem rotineiramente nos filhos os encaminham sempre à emergência de hospitais diferentes, para tentarem esconder esses casos de agressão absurda que provocam danos muitas vezes deploráveis ou fatais às crianças.

Há também machões que se dizem homens porque agridem homossexuais.

Uma agressão é absolutamente covarde, ainda, quando é praticada contra o fraco, contra o indefeso, contra o vulnerável ou contra quem esteja em situação de vulnerabilidade.

Virou moda também desvalorizar ou até ironizar a importância do diálogo, o melhor antídoto contra qualquer violência.

Pessoas que valorizam mais os seus smartfones e que com eles conversam mais até do que com as pessoas que estão à sua volta não reconhecem a importância do diálogo.

Há pessoas que até descartam preliminarmente o valor de qualquer diálogo, o que obviamente faz surgir uma ampla e tantas vezes crescente onda de conflitos cada vez mais acirrados, que acabam por entrar no terreno dos danos irreversíveis a qualquer entendimento.

Entre os casais, esta é uma das situações que tornam a ruptura inevitável.

Agora, é bom que se diga que debate pressupõe que certos ingredientes fiquem de fora, como cinismos, mentiras e deboches, pois isso não é debate, mas sim a tentativa deliberada de irritar o interlocutor, quando então o que seria um debate se transforma em discussão acirrada e gera ainda mais conflitos.

Num mundo em que a palavra amor também está tão desgastada e igualmente tão desvalorizada, a pancada é alçada à condição de prioridade, o que se mostra francamente ineficaz e monstruoso, algo que é comprovado pelo crescente nível de violência em sociedade.

Mulheres, homens, negros, homossexuais, pobres e até mesmo animais indefesos estão entre essas vítimas do clima de pancadaria.

Num trecho de um desses artigos de minha autoria a que me referi, eu situo basicamente a injustiça que se faz em relação à lei que tenta proteger crianças contra agressões físicas, sob o absurdo argumento de que o Estado não tem o direito de legislar sobre a relação entre pais e filhos, visto que isso seria uma interferência indevida na vida pessoal das partes envolvidas.

Ou seja, friso em meu artigo: o Estado interferir para impedir ou punir a violência do adulto contra o adulto pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra os homossexuais pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra as mulheres pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra os negros pode (o que é correto e louvável). O Estado interferir para impedir ou punir a violência contra animais pode (o que é correto e louvável). Mas o Estado interferir para impedir ou punir a violência contra crianças não pode.

Isso não é apenas uma postura equivocada e absurda. É, antes de tudo, uma postura covarde, porque pressupõe salvaguarda para quem comete a violência contra seres que sequer podem se defender.

Portanto, não combata apenas a violência contra a mulher. Combata a violência, que sempre produz mais violência. E isso a história da Humanidade já se encarregou de provar.

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